Manú, a incauta. A pura. Assim era Manú. Até aquele fatídico dia.
Marcos a presenteara com, com… bem, com coisas. Coisas que mudaram sua vida.
Manú resolveu mudar. Começou por seu quarto, colocou todas suas bonecas em uma caixa, devidamente protegidas por sacos plásticos individuais e mudou a decoração, para um tom mais adulto.
O próximo passo era mudar a aparência. Pegou roupas da irmã, que no começo lhe pareceram pequenas, apertadas, mas que, mais tarde, lhe deram confiança. Olhava no espelho, e via que estava diante de uma bela mulher. Faltava ainda o calçado. Claudinha tinha o pé menor. A mãe ainda não havia voltado do trabalho, então Manú visitou seu armário, e escolheu uma bela sandália, de salto alto e fino.
Experimentou, e gostou. Sentia-se mulher. Sentia-se forte, confiante. Ainda faltava alguma coisa. Chamou Claudinha, que já veio com o estojo de maquiagem, e a escova-chapinha, ou algo parecido. Manú, finalmente, assumiu a borboleta que era.

No dia seguinte, antes da aula, esperou a mãe sair de casa, repetiu o ritual, e saiu. Cheia de pompa, toda orgulhosa de si mesma. Caminhou até a escola, causando torcicolos por onde passava. Na chegada, ao portão, Marcos a esperava.
Manú passou na frente de Marcos, o hipnotizando com seu perfume. Marcos a pegou pelo braço, a aproximou, e sussurrou no seu ouvido:
- Vejo que gostastes dos meus presentes.
Era verdade. Os presentes haviam mudado a vida de Manú. Um bilhete e uma caixa.
O bilhete, que inicialmente a assustara, dizia o seguinte:
Manú, és a mulher mais sexy que conheço. Só tu não sabe.
Te quero, e vou te ter. O presente da caixa, vai mudar tua vida.
Por isso Manú tremeu. Mudar minha vida? Como? Resolveu abrir a caixa. Abriu.
Na caixa, uma calcinha vermelha, fio dental. Daquelas que, na parte de trás, sobre o cóccix, fica uma pequena jóia em forma de triângulo, e depois desse uma tênue linha, que segue até encontrar um pequeno, pra não dizer minúsculo, pedaço de pano, que deveria cobrir pélvis da menina. Deveria, porque não cobre, transparente que é.
Manú sorri, e pensa: “uma calcinha não muda a vida de ninguém”. Engano. Vestiu a calcinha, por curiosidade, pra ver como ficava. Até então, Manú só tinha calcinhas de algodão, com carinhas sorridentes. Calcinhas de menina. Que claro, também tem o seu valor.
Na mesma hora, diante do espelho, foi tomada por um sentimento de poder, uma força que só as mulheres possuem. Entendeu que tinha ali, naquela calcinha, a mais poderosa arma de conquista que uma mulher pode ter. Viu-se linda, poderosa. E decidiu mudar sua vida.
O resto, já sabemos.
Quando Marcos a parou na entrada da escola, por um instante, Manú pensou em esnobá-lo. Mas resolveu dar uma chance àquele que a descobriu. Disse que queria conversar com Marcos, mas não agora. Na saída da escola. Atrás do muro. Claudinha havia lhe falado a respeito de “atrás do muro”.
Marcos entendeu o recado, e a esperou, no final da aula, atrás do muro da escola, em um terreno baldio. Sabia o que significava. Aquele era o local freqüentado por casais e/ou futuros casais da escola. Ia se dar bem, pensou Marcos.
Manú veio, trocaram 5 ou 9 palavras, e ficaram. Beijos fogosos, porém molhados. Era a primeira boca que Manú beijava. Marcos, veterano, parecia um polvo, cheio de braços. Manú dava uma de Lev Yashin, o goleiro russo, também conhecido como Aranha Negra, das décadas de 50, 60 e 70. Defendia tudo o tal Lev Yashin. E Manú também. Marcos no ataque, Manú na defesa.
Se deram bem. Teve química. Começaram a namorar.
Daquele dia em diante, Marcos buscava derrubar a barreira que ele mesmo criara. Buscava tirar a calcinha de Manú.