BLOG VELHO

6 Abril, 2008

Santíssimos

Arquivado em: Dos outros — Junior @ 5:37 pm

Leiam esse blog, eu recomendo.

Guria de bom gosto…. heheh.

Clóvis, um Brasileiro – Parte 2

Arquivado em: Folhetim — Junior @ 5:14 pm

O mundo de Clóvis não é mais o mesmo. Sem mulher, sem carro, chefe do setor.

Não foi pra casa aquela noite. Jamais conseguiria encarar o Figueroa. Figueroa era sua inspiração. Uma digna vida de cão. Acordava, comia, dormia. Não aprontava, pra não ser repreendido. Não latia, não corria e nem roia. Um cão medíocre. Certa vez o Figueroa sumiu por uma semana. Ninguém sentiu sua falta.

E era o que o Clóvis queria pra ele. Queria passar por esse mundo sem chamar atenção. Não iria mais conseguir, e agora não podia encarar o Figueroa.

Resolveu ir pro Bar do Bola. Era o bar da repartição, todos iam pra lá. Ficava há duas quadras do escritório, e servia boas e geladas cervejas.

Entrou, sentou, pediu uma cerveja. Melhor, uma dose de vodka antes. Resolveu tomar um porre. No segundo copo, foi interrompido por uma mão. Uma mão suave.

Tocando seu ombro, estava Jussara. Era a secretária do seu Carlos. Jussssara, era como ela se apresentava. Tinha o “s”sibilante. Alguns homens, entre eles Clóvis, tem tesão por mulheres que Sibilam. Já vi até uma comunidade no Orkut, “Amo Mulheres que Sibilam”.

- Eu sssoube que fosstesss promovido, Clóviss.

Jussara era uma morena, perto dos seus 30 anos. Já não ostentava a juventude das incautas estagiárias, mas estava longe das senhoras do almoxarifado.

Era alta, pernas longas, torneadas. Cintura fina, seios fartos. Tinha uma segurança ímpar, do alto do seu salto Luís XV. Desejo de 9, em cada 10 homens da repartição. Não eram 10 porque Clóvis nem cogitava. Era mulher demais pra ele.

Pois naquele dia, Jussara decidiu dar corda pro Clóvis.

Ficou ali, no bar, puxando assunto. Queria saber da vida, do futuro.

Três da manhã, várias vodkas depois, e ela perguntou se o Clóvis não ia pra casa. Ele não podia. Figueroa o esperava. E agora? Resolveu acompanhar Jussara, até sua casa. Não podia deixar uma mulher sibilante caminhar sozinha as 3 da matina. Não mesmo.

Eram 3 quadras, entre o bar do Bola e o JK da Jussara. Caminharam, meio sem jeito, tontos da bebida, inibidos de vergonha. Clóvis se sentia um adolescente. Não flertava desde seus 19 anos, quando conhecera Alice.

Chegaram, e Jussara o convidou para subir. De súbito, Clóvis caiu na real. Até ontem, sua vida era monótona e pacata, como planejado. E hoje, era chefe de setor, solteiro, sem carro, e estava prestes a subir no apartamento da sibilante mais desejada da repartição. E agora?

Saiba no terceiro e último capítulo de Clóvis, um brasileiro!

Falantes..

Arquivado em: textos meus — Junior @ 4:22 pm

Era primavera, e eu voltava de Varsóvia pra Berlin, num trem bem fubango. Era o único eu podia pegar sem tarifas extras com meu europass, e, sinceramente, aquela altura da viagem era tudo que eu queria. Tudo, pelo menor custo.

Acostumado com os trens do resto da Europa, que saiam precisamente em horários como 8:03 (isso antes de conhecer o caótico sistema de transportes italiano), fui pra estação polaca exatamente as 11:00, vinte minutos antes do que meu trem estava programado. Descobri então que a Polônia era mais perto do Brasil do que da Europa. O trem saiu as 12:40, com 1:20 de atraso.

Logo que o trem saiu, passou um cara na minha cabine, com um carrinho de supermercado, cheio de sanduíches, salgadinhos, bolachinhas e outras porcarias… mas foi bem na hora que um outro personagem entrava nessa história, e eu não consegui comprar.

A essa altura, só com o misero café do albergue (um croassaint e um suco aguado, como é de costume nos albergues), minha barriga já parecia cabeça de top model, completamente vazia.

O tal personagem era um senhor germano, no alto de seus 70 anos, cara de Papai Noel. Sabe esses tiozinhos com cara de Papai Noel? Pois é.

Entrou, com sua mala gigante, seu guarda-chuva, uma capa enorme, e eu realmente não entendi por que. (era primavera, lembram?). Bem, o importante é que isso atrapalhou minha compra.

Levantei, e fui atrás do cara com o carrinho…. não encontrei, e cheguei no que era chamado de vagão restaurante.

Antes de falar do vagão restaurante, é preciso explicar como era a comunicação no trem. Nos auto-falantes, o piloto (de trem é piloto?) falava umas 4 palavras em inglês, e uns 15 minutos em alemão. E eu ficava com a estranha sensação de que estava perdendo alguma coisa.

Bem, cheguei ao vagão restaurante, e fui até o “caixa”. Pedi, em inglês, um sanduba. O cara, olhou pra minha cara, e, meio sem jeito, murmurou: “english?”, e apontou pro cozinheiro. Isso evidenciava que ele não falava inglês, e que o cara da cozinha falava.

Fui até a porta da cozinha, dei boa tarde, e pedi um sanduíche. O cozinheiro, num inglês que só os polacos têm, me perguntou: “Chicken sandwich?”. Bem, a esta altura, entendendo que era o melhor que eu podia conseguir, aceitei o de galinha mesmo. Ele continuou a conversa: “drink?”… e eu pedi uma coca. “no coca, Just water”. Ta, me da água então. Mas sem gás.

Sentei e esperei. 15 minutos, e me veio um prato, com galinha ao molho, purê, e uma outra coisa, que nem faço idéia do que era. Eu retruquei, falei “sanduíche, com pão”… e o cara me trouxe um pão caseiro inteiro, fatiado. A água? Veio com gás. Mas tem coisas que simplesmente temos que aceitar…

Comi o que deu daquilo, a seco (porque odeio água com gás – é refri sem sabor!), peguei o resto do pão pra levar pra cabine, e fui pagar.

Quinze Euros. Eu planejava uns 3 ou 4 por um sanduíche, e paguei 15 por uma comida ruim. É do jogo.

Voltei pra minha cabine, e pro meu velinho, cara de papai Noel. Queria puxar assunto, o velinho. Como todos os velinhos em transportes públicos, seja entre a Polônia e a Alemanha, ou entre Porto Alegre e Bento Gonçalves. Acho que eles ainda acreditam na bondade da humanidade, não consideram o perigo de falar de suas vidas para estranhos. Penso ainda que o que querem é provar que são sociáveis, que tem assunto, que podem acrescentar à sociedade. Pois ganhando atenção de um estranho, conseguem provar isso. Se fosse um familiar, poderia ser rotulado como pena, obrigação.

Pois bem, o senhor quis puxar assunto. Mas, porém, entretanto, toda via, ele não falava uma só palavra em inglês. Menos ainda português, ou qualquer outro idioma que eu conhecia. Nos primeiros 15 minutos, eu tentei argumentar, dizer que não entendia alemão. Não adiantou.

Quer saber? Que seja. Foi o que pensei. Conversamos por longas 3 horas. Nenhum dos dois entendia patavinas do que era dito pelo companheiro, mas o que importa? Lhe contei sobre minhas aventuras, muitas delas fantasiosas. Ele ria, e me contava as suas. Provavelmente.

Eis que, quase chegando ao nosso destino, no meio de uma deliciosa gargalhada o já meu amigo jovem senhor, caiu em sono profundo. Assim, repentinamente. Do nada. Até achei que poderia ter morrido. Mas não, roncava.

Como foi boa nossa conversa. Um monólogo de 2. Me senti como os velinhos e velinhas, que do nada começam a falar pelos transportes públicos, mundo afora. Acho que entendi o espírito. Falo, mesmo que não me entendam, pois afinal é uma conversa passageira, literalmente. Somos e continuaremos sendo estranhos.

Chegamos a Berlin, o acordei, descemos, e cada um seguiu seu rumo. Mas nunca mais esqueci aquele rosto.

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